
O senhor já disse que pretende mandar José Sarney para oposição, que vai se distanciar do PSDB e tem atacado o PT. Vai governar com quem?
Espero que o povo cumpra seu papel, que mande para o Congresso um novo conjunto de senadores e deputados. Vamos governar com quem for legitimamente eleito, dialogar com os partidos como se dialoga na França, Alemanha, Inglaterra. Somos a sétima economia do mundo, não podemos fazer política como se fazia no século 19, dando pedaços do Estado a políticos que não têm ligações com os novos valores da vida pública.
Mas é possível governar sem o PMDB, por exemplo?
É possível governar com pessoas e quadros do PMDB que têm preocupações próximas às do nosso campo. O PMDB do Rio Grande do Sul tem figuras que dão todo dia aula de boa política, como o senador Pedro Simon.
O senhor é a favor da independência do Banco Central?
Sou a favor e defendo, na constituição do programa de governo, a independência do BC como existe nas agências reguladoras, só que a escolha dos gestores das agências não pode se dar mais no balcão das indicações políticas. Queremos um mecanismo transparente, como um comitê de busca, para dar oportunidade a quem tem currículo e competência. Chega de partidos quererem ser donos de pedaços do Estado.
omo conciliar as posições defendidas por sua vice, Marina Silva, com as dos empresários, que são divergentes?
Não vejo resistência. Ao contrário, há empresários que dizem que votaram nela na eleição passada.
Como frear a pauta conservadora dos evangélicos, partidários de Marina Silva?
Separo muito bem Estado e religião. O Brasil é um país laico. Tenho a minha crença, e a Marina, a dela. Nós nunca misturamos religião com política. Respeito todas as crenças, todos os credos.
O Brasil está à beira de uma crise de energia, e especialistas são claros em defender a construção de hidrelétricas. Como levar adiante projetos condenados por Marina Silva?
As hidrelétricas que estão sendo construídas hoje foram licenciadas pela Marina no tempo em que era ministra. Ninguém no mundo de hoje imagina que você fará uma hidrelétrica sem preocupações ambientais. A questão energética é um grave problema no Brasil, e quem vem comandando a questão há 12 anos é a presidente Dilma. Os erros dos últimos anos já estão acumulando prejuízos ao erário que passam de R$ 100 bilhões, ou seja, 10 vezes o que a União coloca na educação por ano. O setor tinha plano estratégico, tinha conselho político plural e terminou por perder a visão de caráter estratégico, passou a ser governado quase única e exclusivamente por uma ou duas pessoas ao lado da presidente, de maneira autoritária.
Qual a sua posição sobre a regulamentação da mídia?
Quem regulamenta a mídia é o leitor. Se essa editoria é reacionária e conservadora, o leitor procura uma mídia que serve ao seu pensamento. Hoje, há mudanças tão profundas nas plataformas de comunicação que esse debate é deslocado no tempo.
O Rio Grande do Sul espera aprovar a lei que muda o indexador da sua dívida. O senhor é a favor da medida?
A gente precisa ter discussão sobre o pacto federativo, que está cada dia mais fragilizado. Quando Lula deixou o governo, de cada R$ 100 da arrecadação de tributos no país, R$ 14,50 iam para os municípios. Hoje, R$ 11 vão para os municípios. Temos um ambiente claro de contenção das receitas nos Estados e municípios e temos Estados importantes, como o Rio Grande do Sul, vivendo situação fiscal complicada há mais de 20 anos. Temos de encontrar um caminho para fortalecer o pacto e ver situações específicas.
Se Dilma for substituída por Lula, o senhor se manterá na oposição?
A nossa decisão não foi tomada em função do candidato de determinado conjunto. Vamos concorrer para oferecer ao Brasil uma chance de mudar, mas mudar para o futuro, não para o passado.
O que Marina Silva como vice agregou a sua candidatura?
O gesto tomado por ela, ao não poder ter a Rede constituída para essas eleições, é o gesto digno da nova política. Marina poderia ficar pensando na pessoa dela, se lamentando, poupada de ter de tomar decisões. Ela buscou na cena política brasileira quem está mais próximo da sua caminhada, e escolheu o PSB. Ela tem nos ajudado, com sua experiência de vida, nos aproximando de setores da juventude, ajudando com conteúdo no debate. E vai ajudar a juntar mais brasileiros para que a gente possa vencer as eleições.
Jornal Zero Hora Notícias