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| Bruno Torturra, ativista e jornalista / C. QUINTANILHA |
O ativista e jornalista Bruno Torturra ficou fortemente identificado com as manifestações de junho de 2013, quando atuava com a Mídia Ninja, um grupo independente de jornalismo, que cobriu os protestos que tomaram o país e assustaram o mundo naquele ano. Os veículos tradicionais eram desprezados pelos manifestantes na ocasião por não terem captado de cara quais eram as demandas do grupo, e por terem sido rotulados de “vândalos”, inicialmente. Era uma época em que ainda não se entendia bem o que eram os Black Blocs, Movimento Passe Livre, e nem se falava em eleitores ‘coxinhas’ ou ‘petralhas’ com tanta ênfase como agora.
Naquele tempo, Torturra transitava à vontade pelas ruas do país levando as imagens ao vivo dos protestos pela web, vídeos de celulares feitos pelos manifestantes, e as cenas de violência que chocaram a população, aumentando o número de pessoas na rua. Fora da Mídia Ninja desde o final de 2013, hoje ele cuida do Estúdio Fluxo, também de jornalismo, e se mantém na ativa com a produção de conteúdo para a internet. Nesta entrevista, ele compara as ‘jornadas de junho’ com o momento atual do Brasil, prestes a viver uma marcha contra a presidenta Dilma Rousseff.
Pergunta. Há quem compare o movimento atual com as jornadas de junho de 2013. Faz sentido?
Resposta. Não adianta comparar, pois a origem do movimento atual é oposta à de junho de 2013, que teve como gatilho uma demanda não só histórica, mas de cunho de esquerda e popular: pelo transporte grátis. Era uma pauta específica e histórica, catapultada, depois, pela violência policial [empregada nos primeiros protestos].
P. Qual é a sua avaliação?
R. Muitas coisas me preocupam. Há um sentimento muito raivoso, e desfocado que afeta não a presidenta, mas a estabilidade democrática que ainda é muito frágil no país. Temos eleições há muito pouco tempo. Tem muitos oportunistas por trás dessas manifestações, que não vem à frente. Na verdade, é um movimento antítese ao de junho.
P. Você teve um papel importante naquele momento, com a Mídia Ninja que transmitia ao vivo os protestos pela internet. Como se sente agora?
R. Sinto desilusão porque os protestos estão descolados dos reais problemas pelos quais o país está passando, e tantas outras pautas que resolveriam problemas que esta turma aponta.
P. E quais seriam as verdadeiras pautas?
R. Todas as vezes que tivemos chance de discutir uma reforma política não fomos capazes de unir a população em torno desse assunto que provoca mais corrupção que qualquer outra coisa no país. O próprio movimento contra o aumento de tarifa foi absolutamente insatisfatório. Falando especificamente de São Paulo. Não conseguimos colocar 5.000 pessoas nas ruas por um plano de emergência para a falta de água. A violência policial, o fim da polícia militar. Vivemos um estado que mata milhares de pessoas todo ano e tratamos com uma naturalidade impressionante. Não colocamos gente suficiente para tratar desses temas, e agora querem tratar o impeachment. O quanto esse tema está sendo tratado de maneira diligente, pela mídia, políticos, e pela própria natureza superficial e histérica do Facebook.