Entrevista Valor Econômico: “Brasil é um país cindido” diz Marina

Valor: A proibição ou limitação severa das contribuições privadas em campanhas eleitorais, em discussão no Legislativo, já não é uma consequência da Lava-Jato?

Marina: Este debate já estava colocado há tempo. Em 2010, desenvolvemos um sistema de colaboração para as campanhas, que utilizamos também em 2014, e conseguimos 13% dos nossos recursos de pessoas físicas. É fundamental estabelecer a lógica de muitos contribuírem com pouco, para que ninguém se sinta dono do candidato. Nesse sentido, a combinação entre o financiamento público e as contribuições de pessoas físicas é um caminho.

Valor: A senhora coloca-se contra o impeachment da presidente…

Marina: Olha, as investigações estão em curso, o processo está em aberto. O impeachment é fruto de algo que se explicita a partir de um processo de investigação, não é algo que se fabrica. Não se fabrica porque a gente precisa respeitar os processos constitucionais da nossa democracia. Não posso mudar o presidente porque discordo dele. Não tem ninguém condenado a priori e ninguém com atestado de idoneidade. Hoje temos uma realidade em que o partido da presidente tem dois tesoureiros presos e várias lideranças comprometidas, e o partido do vice tem duas de suas principais lideranças no processo da Lava-Jato. Não se pode ter dois pesos e duas medidas.

Valor: A senhora foi ministra cinco anos do governo Lula e teve vários enfrentamentos com grupos econômicos. Tem condições de avaliar se Lula tinha uma conduta própria ou imprópria com estes grandes grupos empresariais? Ele lhe deu autonomia para lidar com esses interesses?

Marina: Enquanto fui ministra, tive autonomia para fazer o meu trabalho de defesa do meio ambiente. Foi assim que fizemos licenciamentos complexos, como o das usinas de Santo Antônio e Jirau. Foi um processo difícil, havia uma pressão enorme para que se desse a licença de qualquer jeito e eu era o tempo todo desqualificada como sendo a ministra dos bagres. Reduziam todos os problemas de um licenciamento como aquele à questão dos bagres, que são importantes, mas ali tinha problema de sedimentos que não estava resolvido, de mercúrio, malária, de populações. Demos a licença com mais de 40 condicionantes, numa demonstração que não estávamos ali nem para facilitar nem para dificultar, mas para fazer o que era certo.

Valor: Teve respaldo de Lula?

Marina: É impossível um ministro do Meio Ambiente fazer o que foi feito se não tiver respaldo do dirigente maior. Saí em um momento difícil, quando começaram as pressões vindas do Ministério da Agricultura, dos governos do Mato Grosso e Rondônia e do ministro Mangabeira Unger, para que o presidente revogasse medidas. Percebendo que o presidente podia ser induzido ao erro, pedi para sair do governo. E saindo, a sociedade brasileira deu respaldo às medidas e elas foram mantidas. E eram tão consistentes que permaneceram mesmo quando se tentou removê-las.

Valor: A senhora teve quase a mesma votação, em 2010 e 2014. O que está faltando para ir além? O que falta para a terceira via ir além deste binômio que o Brasil vive há 20 anos e recolher os votos dos desiludidos? A decepção com Dilma e com o PT é um catalisador suficiente para acabar com a polarização?

Marina: Na primeira tive 19% e na segunda, 21% dos votos. Não estancou, ali se abriu uma porta. Essa proposta, mesmo com 1,20 minuto de televisão em 2010, e em 2014 com 2 minutos contra 12 minutos da candidatura oficial, consegue 21%, em uma das campanhas mais difíceis que um projeto político pode alcançar em uma democracia. Um processo que não era nem de destruição, era de aniquilação moral e política. Isso não é estancar. É começar a sair do terreno da opção entre PT e PSDB. Historicamente o Brasil vive a saga da polarização: Império e República, Arena e MDB, PT e PSDB. O Brasil hoje é um país cindido e isso é algo que precisa ser reparado. Por isso fui procurar o Eduardo Campos quando foi negado o registro da Rede, eu poderia ter saído por um dos partidos que me convidaram. Naquela época estava com 26% das intenções de voto, e ele, com 4%. Para mim, não é onde esbarra, é onde começa.

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